É complicado!

08/07/2012 10:58

Escrito por  Raquel Sena

 

Empresas ainda deixam a desejar na hora de produzir embalagens, trazendo ao mercado recipientes nada funcionais

Pote de vidro de palmito difícil de abrir, sachê de catchup ou mostarda que precisam ser abertos com a boca, pacote de salgadinho que explode espalhando todo o conteúdo pelo chão, latas de atum que podem causar ferimentos, latas de cerveja que quebram as unhas. Quem nunca passou por uma situação semelhante? Embalagens como essas, nada funcionais, ainda são um tormento na vida de muitos consumidores e já fizeram muitos passarem por situações constrangedoras. É o caso de Joyce Cruz.

Com 27 anos, a psicóloga já se deparou com diversas embalagens, que em vez de ajudar, atrapalham. Um exemplo é um creme para mãos da Natura com embalagem feita em alumínio. “Sempre que o conteúdo está acabando, ela explode e sai creme por todos os lados, semelhante àquelas pastas de dentes antigas”. Mas o que trouxe maior constrangimento foram os sachês de catchup e mostarda. “Já aconteceu de estar em uma lanchonete e ao tentar abrir o sachê com as mãos, usei tanta força que espirrou mostarda para todos os lados, sujando minha roupa”, conta.

Para Fábio Mestriner, professor e coordenador do Núcleo de Estudos da Embalagem da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), para ter uma boa embalagem é preciso atender às necessidades e aos anseios dos consumidores e garantir que o produto chegue a seu destino final em perfeitas condições de consumo. “Muitas vezes, para garantir que o produto esteja hermeticamente fechado, as empresas esquecem como é difícil abrir certas embalagens. É a ênfase exagerada em um único item”, diz.

Em situações como essas, o consumidor não deve se calar. “Cabe a ele pleitear pelos seus direitos e lutar por uma mudança, pois como cliente ele tem grande força para fazer com que as companhias pensem em alternativas para elevar a qualidade do produto”, afirma Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre).

Segundo ela, a embalagem que traz uma funcionalidade eficiente, dentro de um custo apropriado, é extremamente importante e ajuda a fidelizar o consumidor. Mas existe uma explicação para o problema causado pelos sachês. “Trata-se de um produto que tem valor agregado muito baixo para as empresas, que busca realmente a embalagem que mais oferece custo–benefício com o intuito de reduzir o impacto financeiro dessa ação. Mas acredito que quando encontramos alguns desses sachês sem o picote de abertura é porque em algum momento do processo de produção esse sistema não aconteceu adequadamente e, nesse caso, o consumidor tende a ter dificuldade para consumir o produto”, explica Luciana.

Como nasce uma embalagem

A embalagem é uma das mais poderosas ferramentas de marketing que um produto dispõe para competir. Rodrigo Costabeber, diretor de criação da agência B+G, afirma que o processo de elaboração de uma embalagem é minucioso e demorado. Primeiro, a empresa envia um briefing com informações sobre o produto a ser desenhado. Com esses dados, a agência vai a campo para entender o perfil do shopper, que é aquele que compra o produto, mas não necessariamente quem consome. “Procuramos saber como funciona o comportamento dele no ponto de venda, qual o tipo de contato que tem com esse produto e analisamos a concorrência. Ou seja, o ponto de partida é se aprofundar no processo de compra e entender a necessidade do comprador”, completa.

A agência não se restringe apenas em analisar o perfil do consumidor. É realizada uma série de pesquisas, inclusive de tendências. “Por exemplo, se eu for elaborar uma embalagem de xampu, não farei apenas uma pesquisa sobre o produto, mas vou analisar uma série de elementos desse universo ligado à vaidade da mulher. Pesquisamos inclusive a linguagem editorial em revistas femininas”, revela Costabeber.

Com todos os dados coletados, chega a hora de cruzá-los com o objetivo da marca. O design então elabora uma estratégia para o projeto e faz uma proposição indicando como a embalagem deveria ser para atender a todos os requisitos que foram levantados nesses estudos. Mas sempre trazendo algo de novo para a categoria onde o produto compete. Dependendo da complexidade da embalagem, ela pode levar de três a seis meses para ser produzida. Para mostrar que algumas empresas ainda pensam no seu consumidor, o executivo cita como exemplo a reformulação da linha de Papinhas Nestlé. Como o rótulo desses produtos é pequeno, e a linha de variedades muito grande, ficava difícil para as mães conseguirem identificá-los na gôndola, devido à diversidade de produtos. Para facilitar a compra dessas consumidoras, a solução encontrada foi a utilização do processo de aprendizagem. “Apresentamos ao cliente dois caminhos criativos que foram testados em pesquisas com as consumidoras. O caminho mais bem avaliado foi o da utilização do processo de aprendizagem como nomenclatura e diferenciação entre as variedades de forma lúdica, porém direta. A linha se divide em quatro etapas que vão introduzindo aos poucos a combinação de ingredientes. Para a primeira etapa usamos apenas uma letra, na etapa dois, duas letras, e assim por diante”, conta Costabeber.

Além disso, atendendo às solicitações recebidas no Serviço de Atendimento ao Cliente da Nestlé, a empresa reformulou o frasco das Papinhas referente à etapa Junior (a partir de um ano). Por ser um pote muito estreito e alto ele impedia o aproveitamento total. O fornecedor então desenvolveu um frasco mais baixo e com a boca mais larga que facilita a entrada de uma colher de sopa e a remoção de todo o seu conteúdo. Todo esse processo durou cerca de seis meses e, de acordo com o Costabeber, por meio de pesquisas de efetividade realizadas no ponto de venda, ficou comprovado a identificação das mães com os produtos.

A Natura recentemente reformulou a embalagem da linha Ekos para tornar seu uso mais prático. Os frascos feitos de plástico PET reciclado ganharam a tampa chamada twist, feita em alumínio, mais prática de manusear e que não deixa vazar o produto no momento de transportá-lo, como acontecia em outras embalagens. “Seja qual for o produto, as empresas não devem pensar apenas na beleza da embalagem. Elas devem principalmente conter todas as informações necessárias para o cliente, de uma forma clara e objetiva, e com uma modelagem que seja prática para armazenamento, ou seja, devem ser realmente funcionais”, opina Joyce.

A chave para o sucesso

No Brasil, o setor de embalagem é um dos mais avançados no que diz respeito ao design e à tecnologia de produção. Em 2011, a produção física da indústria de embalagem cresceu 1,5%, atingindo uma receita de R$ 43,7 bilhões. A perspectiva para 2012 é que esse setor movimente cerca de R$ 46 bilhões, segundo dados do estudo da Abre, conduzido pela FGV.

Porém, mesmo diante de números tão positivos, nem sempre é fácil agradar a gregos e troianos. A consumidora Joyce acredita que nos últimos anos houve, sim, uma evolução, mas acredita que alguns pontos ainda devem ser aperfeiçoados. “Assim que as embalagens estivessem prontas, acho que valeria a pena as empresas testarem com consumidores reais, antes mesmo de lançá-las no mercado. Acredito que nossa opinião é de extrema importância para o sucesso de um produto.” Para Mestriner, a embalagem existe para atender às necessidades e aos anseios dos consumidores e da sociedade. Se não conseguir atender esses requisitos básicos, está condenada ao fracasso. “Ela é uma poderosa ferramenta de competitividade cujo custo já está embutido no valor do produto; portanto, as empresas deveriam utilizar melhor esse valioso recurso que elas têm dentro de casa. O Brasil precisa de boas embalagens para agregar valor e melhorar a competitividade aqui e lá fora”, conclui.

Luciana, da Abre, concorda. “A opinião do consumidor é muito importante. Ele é o foco chave em todo o desenvolvimento de produto colocado no mercado. A voz dele tem poder e com esse feedback a empresa saberá melhor o caminho a seguir”, afirma. O recado está dado.

 

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Fonte e créditos: Portal NOVAREJO

 

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